Sobre educação formal

Segue um texto-desabafo escrito algum tempo atrás:

man-1529153_640Vejo muita gente reclamando da educação no Brasil, dizendo que ela é de péssima qualidade, que isso precisa mudar. Mas o que querem dizer com isso? O que consideram uma educação de boa qualidade? Como essa qualidade é medida? Como essa educação é compreendida? Minha impressão é que falam apenas de números, de resultados de provas que deveriam ser mais altos, ou (eu espero) a partir de uma impressão de que a educação pode ser melhor do que essa corrida louca por informação traduzida em notas.

Temos uma ótima formação se você quer ser um fazedor de provas. Algumas escolas inclusive trazem o slogan de preparar as crianças para concursos desde o Ensino Fundamental.

Por outro lado, vejo professores e professoras de diferentes áreas de conhecimento e seguimentos da educação dizendo o quanto o nosso sistema de ensino é ineficaz exatamente por sua característica conteudista, pela falta de relação entre o que se aprende na escola e a vida das crianças e adolescentes que estão ali (porque são obrigadas a isso, classroom-381895_640mas definitivamente não por sua livre escolha), e pela pressão que professores/as sofrem em cumprir com uma quantidade enorme de conteúdo em tempo reduzido, porque precisa-se que cada vez mais alunos passem no vestibular ou ENEM. Ao mesmo tempo paira essa ideia de que “escola é importante”. E as crianças e adolescentes percebem que algo está errado, perguntam sempre porque precisam ir para escola e as respostas que parecem sempre aparecer são “para conseguir um bom emprego”, “para passar para o curso que você gosta” ou aquele velho “para ser alguém na vida”. Que frase péssima. Supõe uma série de coisas sobre o que vem a ser “alguém” em oposição a um “ninguém”, como se suas escolhas pudessem te garantir um desses dois títulos que, depois de ganhos, vão se dissolver e ser absorvidos pela pele do indivíduo que nunca mais será outra coisa que não “alguém na vida” ou “ninguém”. Também carrega a ideia de que só é “alguém na vida” a pessoa que ganha uma quantia aceitável (por quem?) de dinheiro. Isso pressupõe que pessoas que ganham pouco o fazem porque não se tornam “alguém” mas “ninguém”, tirando toda a responsabilidade da forma desigual como nos organizamos em sociedade, toda a responsabilidade de um sistema econômico que se baseia na pobreza para gerar riqueza.

Será que essas respostas são boas o bastante? São muitas horas que passamos desde a infância até a adolescência em uma instituição que quase todos concordam que é importante, mas a justificativa para isso está numa carreira no futuro? Na quantidade de dinheiro que talvez vá ou não adquirir? Não me parecem boas explicações.

 

calvin-70Me pergunto: que escola é essa que temos hoje? O que percebi nesses 5 anos trabalhando com educação em estágios, projetos, ensino público e privado, galeria, Ensino médio, EJA, Ensino Fundamental, turno regular e estendido, Educação Infantil e em cursinho pré-vestibular é que realmente temos uma estrutura feita para não dar certo. Temos pouco tempo com cada turma; uma mudança muito alucinada de disciplinas num mesmo turno; uma quantidade absurda de conteúdo para passar e muito pouco tempo desenvolver cada conteúdo de forma significativa com os alunos; temos que dar notas; as notas muitas vezes precisam seguir cálculos pré-estabelecidos ( 2 de conceito 3 de dever de casa e 5 de prova, por exemplo); muitos alunos numa mesma sala, de forma que não há como dar atenção devida para cada um individualmente; uma parte burocrática que não é compatível com o tempo que temos com cada turma (me lembro de gastar metade de uma aula de 40 min. do noturno com a chamada, porque cada turma tinha por volta de 50 alunos.); falta de autonomia dos professores/as sobre o conteúdo que será ministrado; pressão constante dessa prova (vestibular/ENEM) que virou o objetivo maior do Ensino Médio; falta de confiança na competência dos professores por parte de pais, alunos, diretores e secretaria de educação; formatação das salas e das aulas em formato de palestra; estrutura industrial (o que não combina com produção de conhecimento, com geração de experiências, com observação atenta, com pesquisa ou produção teórico-prática); o corpo é esquecido, tratado quase como um transporte de mentes absorvedoras de conteúdo, lembrado apenas pelo pessoal da Educação Física ou das artes, as áreas consideradas de menor prestígio.

Então, para alguém que, como eu, acredita que a educação é uma área que deve alimentar possibilidades, que deve nos empurrar para espaços de descoberta e de construção de novas ideias e constante observação e construção de si, o que descrevi acima evidencia um sistema educacional falho. Acredito inclusive que o único sentido em que nosso sistema educacional não é falho é em criar adolescentes neuróticos e professores/as cada vez mais doentes.

Eu sei que coisas boas acontecem dentro dessa estrutura, que lindos projetos são desenvolvidos, que nos desdobramos para que o que levamos para sala possa fazer sentido para os/as alunos/as. Sabemos que muitas vezes os/a alunos/as despertam para interesses próprios a partir de coisas que acontecem em sala de aula e que alguns até desenvolvem gosto pelo estudo. Coisas boas acontecem dentro dessa estrutura por ações pessoais de professores, coordenadores, diretores, mas não por conta da estrutura.frase-pensar-e-na%cc%83o-obedecer_thumb3

Mas algo vem se agravando nessa estrutura que já está montada assim há algum tempo: as notas começaram a tomar contornos de produto, um produto caro, e que os clientes exigem quando pagam. Daí os professores ficam sendo inimigos, ficam sendo aqueles que se colocam entre o filho e a nota desejada e aquilo que já não estava bem começa a colapsar. Que educação é possível quando os caminhos se evaporam e apenas um indicador desse caminhar é percebido/desejado?

Daí eu vejo essas pessoas que pagam caro pela escola dos filhos e que querem uma educação de qualidade, mas não confiam nos professores das escolas; e vejo pessoas que criticam a educação, mas que não parecem olhar criticamente para o ensino ou pensar em possibilidades que façam mais sentido.

 

Falta coragem…

(atualização)
Falta coragem para fazer uma mudança significativa e que faça sentido para estudantes. A tentativa desse governo de mudar o Ensino Médio via Medida Provisória, sem diálogo com as comunidades escolares, embora traga alguns conceitos interessantes e que valem ser avaliados e testados, é uma distorção grave de algo que poderia ser bom. De fato o Ensino Médio precisa ser reformulado, de fato somos excessivamente conteudistas, mas mudanças estruturais levam tempo, análise, debate, investimento e mais tempo. Isso além do fato de não se repensar o Ensino Fundamental em função de uma potencial mudança do Ensino Médio. Acredito que teremos um ano extremamente caótico na educação durante o ano que vem. E, se o tivermos, que o caos seja o ponto de partida para mudanças efetivas e que deem maior sentido para a educação formal.

E todo apoio aos estudantes que seguem lutando por educação que faça sentido para eles e elas!

 

sobre criatividade e erro

Uma leitora chamada Thammyres escreveu um comentário sobre sentir falta de um estímulo a criatividade na escola e dificuldade na escrita. Abro para vocês a resposta:

Realmente acredito que temos grandes desafios no ensino e pouco olhar para a produção sensível, e concordo com você que, se as artes estivessem mais presentes no ensino, sonhar, criar e aprender seriam também mais presentes nas vidas de estudantes e professores/as.

Quanto à escrita, acredito que a melhor forma de aprender a escrever ou aprimorar a escrita se dê por duas vias: lendo e escrevendo. Em ambas a criatividade é exercitada e em ambas se tem contato com as ferramentas da escrita: palavras, conectivos, formas de organizar ideias, figuras de linguagem, possibilidades… Mas faz toda a diferença encontrar o tipo de leitura que te agrade. Literatura fantástica, contos, poesia, romances, histórias policiais, filosofia, textos acadêmicos de assuntos diversos, histórias em quadrinhos, jornais, relatos de viagem, revistas, etc.

[Falei da escrita, mas o mesmo serve para outras linguagens: a fotografia, o desenho, o vídeo, etc., aprendemos com a prática, o estudo e o contato com produções diferentes. ]

sabe, a criatividade é como um músculo que todos temos, mas que precisa ser exercitado ou poderá atrofiar. Isso quer dizer que ela pode estar assim meio flácida, precisando de exercício, e, como ela se alimenta daquilo que a gente já viu ou experimentou no mundo, precisamos entrar em contato com coisas diversas (possivelmente obras literárias ou visuais, dentre uma infinidade de outras coisas).


Talvez seja bom saber também que a criatividade tem inimigos que vivem dentro de nós. Isso é bom e ruim. Bom porque, como nós os criamos, podemos combatê-los, ruim porque é bem difícil percebê-los, não alimentá-los e ainda combatê-los. Não sei se eles tem nome – é possível- , mas eles chegam em nós normalmente na forma de frases como “eu não consigo”, “nossa, isso está ficando uma porcaria”, “não tenho talento para isso”, “não fui feita pra esse tipo de coisa” e coisas do tipo. Daí o trabalho é olhar para esses pensamentos, mandar beijos e continuar fazendo o que quer que estejamos fazendo. Tudo bem se ficar ruim. Talvez precise ficar ruim muitas vezes antes de ficar bom. Mas é importante seguir praticando.

[preciso transformar isso num mantra: “tudo bem errar, é só seguir praticando”]
lhes desejo muitos sonhos, criação e aprendizado!

Privilégio

amores,

aqui vai um vídeo com um exercício sobre privilégio para entendermos o que é isso e onde estamos em relação a ele.

Como os privilégios afetam nossas vidas?

Existem pessoas com mais oportunidades que outras?

Que pessoas encontram mais facilidades e oportunidades e quais encontram menos? Por quê? como isso começou e por que se mantém?

Que medidas individuais e coletivas podem ser tomadas para diminuir essas diferenças?

Fazer arte

Neil Gaiman, escritor britânico que dentre um vasto repertório de trabalhos escreveu Sandman, Coraline e A Máscara da Ilusão, foi convidado para falar na formatura da Universidade das Artes da Filadélfia, nos EUA. Embora ele fale com graduandos, acredito que sua fala seja inspiradora para qualquer um/a que tenha algum tipo de produção. Confira:

Por que estudar artes? ( e sugestões de animações)

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Garrafas revestidas de tecido – 6º ao 9º ano

Uma vez me perguntaram em sala de aula “por que estudar artes?” – na verdade mais de uma vez, e cada vez chegamos em respostas diferentes, mas aqui vai o relato de uma dessas vezes. Obviamente eu retornei a pergunta para a turma: por que estudar artes? Esta era uma turma de sexto ano e eles responderam com tom de provocação que não podia ser apenas por conta da criatividade, porque não precisarão muito dela na vida. Eu disse que realmente criatividade era apenas uma das coisas que exercitavam e perguntei novamente, ao que me responderam algo como porque alguém decidiu que seria obrigatório. Embora parte da turma me olhasse com aquele de “agora pegamos ela”, outra parte parecia ter uma dúvida real sobre a questão, que, inclusive, considero extremamente pertinente.  Continuamos então a conversa. Primeiro falei um pouco sobre a diversidade de momentos em que usamos a criatividade, seja para resolver um problema difícil, seja para ter melhores resultados em diferentes trabalhos, e depois falei de alguns motivos mais óbvios para o estudo da arte como desenvolver a inteligência espacial e a coordenação motora, experimentar diferentes formas de expressão, etc. Então perguntei sobre as outras matérias, por que estudá-las? Matemática e português tem funções

Releitura dos bonecos Karajá com argila.  6º ano

Releitura dos bonecos Karajá – 6º ano

práticas que todo mundo pontua com facilidade, mas filosofia, geografia, ciências, se você não for trabalhar com isso, por que estudá-las? O que falei foi que todas elas nos ajudam a compreender o mundo de uma forma específica. Eu posso observar o mundo pelas lentes da matemática, da história, da língua, e cada área vai trazer informações, métodos, questões, ferramentas para nos ajudar a compreender o mundo

em que vivemos. As artes (e a cultura visual) também. Por meio delas podemos perceber, conhecer, criticar, experimentar, sentir, produzir uma série de coisas. Podemos entrar em contato com a produção sensível de diferentes lugares e tempos, podemos observar as diferenças entre povos, podemos sentir muita coisa. Podemos ser provocados/as, podemos sair de nossa zona de conforto e compreender melhor o mundo que nos cerca.
Sei que existem inúmeras respostas possíveis para a pergunta que me fizeram, mas esta eu quis compartilhar. E agradeço muito aos meus/minhas alunos/as (que também são meus/minhas mestres/as) que perguntaram isso diversas vezes e que muitas vezes me tiraram também de minha zona de conforto.
Agora, deixo uma animação de histórias do poeta Manuel de Barros e o trailer de uma animação longa metragem chamada O menino e o mundo. Cada animação mostra diferentes olhares sobre o mundo. Aproveite!



Saiba mais sobre esta animação em http://omeninoeomundo.blogspot.com.br/p/blog-page_9.html

E vocês o que acham? Por que estudar artes na escola?

O perigo de uma história única

Amores, este vídeo é de uma fala da escritora nigeriana Chimamanda Adichie. É uma fala muito especial, que nos explica fatos que esquecemos com frequência e que são extremamente importantes para pensarmos sobre arte: que todas as pessoas, dos mais variados contextos e com as mais diversas características,  são produtoras, e que costumamos ver apenas uma história ao invés das várias histórias existentes. Aproveitem!

O que costumamos imaginar quando se fala de África?

Que outros povos não costumamos ver?

Qual é a história única que normalmente contamos ou ouvimos sobre a história do mundo e sobre a história de nosso país?

Que outras histórias podemos conhecer no mundo e em nosso país?